Eliane Potiguara [Escritora, poeta e professora Brasileira]

Eliane Potiguara foi indicada em 2005  ao Projeto Internacional "Mil mulheres ao Prêmio Nobel da Paz", é escritora, poeta, professora, formada em Letras (Português-Literatura) e Educação, ascendência indígena Potiguara, brasileira, fundadora do GRUMIN / Grupo Mulher-Educação Indígena. Membro do Inbrapi, Nearin, Comitê Intertribal, Ashoka (empreendedores sociais), Associação pela Paz, Cônsul de Poetas Del Mundo. Trabalhou pela Declaração Universal dos Direitos Indígenas na ONU em Genebra. Escreveu “METADE CARA, METADE MÁSCARA”, pela Global Editora.E seu último livrp é “O COCO QUE GUARDAVA A NOITE” Ganhou o Prêmio do PEN CLUB da Inglaterra e do Fundo Livre de Expressão, USA.

 Contato:
 Site pessoal: www.elianepotiguara.org.br    
 Site Institucional: www.grumin.org.br
 E-mail: elianepotiguara@uol.com.br
 Tel: 021-2577-5816/Cel: 021-9335-5551


  

"A riqueza dos povos indígenas está na territorialidade: cultura, tradições, espiritualidade, artes, línguas... uma rica cosmovisão."
 (Eliane Potiguara)






 LIVROS PUBLICADOS



O COCO QUE GUARDAVA A NOITE (2012)

No princípio do mundo não havia noite nem lua. Boiuna, a Grande Serpente, põe o índio Aruanã à prova e entrega a ele o coco que guarda a noite. Será que ele vai obedecer às ordens da serpente e não abrir o fruto antes da hora?
Por que a noite ficava confinada dentro de um coco?

Nesse reconto originário de uma lenda karajá, os personagens precisam enfrentar o mistério da descoberta da noite, e, para isso, seguem um caminho mágico, de realidades e fantasias dessa cultura indígena.



 SOL DO PENSAMENTO (2005)


1º E-book indígena na internet.
Organizadores: Grumin/Rede de comunicação Indígena, NEI (Núcleo de Escritores Indígenas do INBRAPI) e Vanderli Medeiros Produções.




Metade Cara, Metade Máscara fala de amor, de relações humanas, paz, identidade, histórias de vida, mulher, ancestralidade e famílias. É uma mensagem para o mundo, uma vez que descreve valores contidos pelo poder dominante e, quando resgatados, submergem o self selvagem, a força espiritual, a intuição, o grande espírito, o ancestral, o velho, a velha, o mais profundo sentimento de reencontro de cada um consigo mesmo, reacendendo e fortalecendo o eu de cada um, contra uma auto-estima imposta pelo consumismo, imediatismo e exclusões social e racial ao longo dos séculos.



“AKAJUTIBIRÓ, TERRA DO ÍNDIO POTIGUARA” (1994), cartilha de apoio à alfabetização para adultos e crianças, apoiada pela Unesco, órgão das Nações Unidas para a Educação, impressa sob o apoio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, editada pelo Grumin.
 

 

 A TERRA É A MÃE DO ÍNDIO (1989)

Livro premiado pelo Pen Club da Inglaterra. Esse texto foi traduzido para o inglês e foi tese de dois mestrados (Índia e USA), no tema ecofeminismo. A primeira edição do livro foi apoiada pelo Programa de Combate ao Racismo (Conselho Mundial de Igrejas) com sede em Genebra. A segunda edição foi apoiada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Ambas edições realizadas pelo Grumin.




 OUTRAS PUBLICAÇÕES: 

- Jornal do GRUMIN;
- Boletim do GRUMIN em inglês; 
-  Série Caderno Conscientizadores;
- Publicações em coletâneas; 
- Publicações em sites e blog


Poesias de Eliane Potiguara


ATO DE AMOR ENTRE POVOS
BOCA VERMELHA, guerreiro das cordilheiras
cansado... Repousava adormecido sob o orvalho.
Abriram-lhe os olhos rubros raios solares,
aromas silvestres, canções da mata.
Era Cunhataí - trêmula - errante das águas,
Envolta em folhagens, flores mas sem abrigo...
Cantou-lhe em voz alta e compassada,
uma canção de amor... Mas sem destino:
(porém ele nada dizia e tudo entendia)

- Desperta JURUPIRANGA !
Vem me ver que hoje acordei suada.
Benzo
com o sumo de minha rosa aberta, enamorada,
as manhãs de delírio, completamente cansada

Vem, que te sonhei a noite toda:
Puro, te revelando nas águas do Orenoco,
Sorrateiro, espreitando o massacre de Potosi
Vem, que te sonhei na noite pela PAZ
E teus dedos velozes, a guarânia, tocavam
as vitórias felizes do Império Inca.
Teu rosto estranhava a luz que me envolvia,
porque - recuperado - todo o estanho eu trazia.

Vem, que vou me pintar com urucum
Vou me encher de mil colares
pra te esperar pro ritual

Tenso
está meu corpo ofegante e
penso
no teu cheiro de homem,
no teu corpo de homem,
que me assanha e me esquenta.

Me senta a teu lado,
me toca c’oas mãos
poéticas, tão grandes e musicais

Me espera  na hermosa Ponta Porã
E faz tua amante se sentir cunhã

Me roça
Me faz a palhoça
pra eu morar.

Me afoga em teus beijos,
teus quentes desejos
pra que eu veja
um pituã pra nos cantar

Me traz os teus cânticos
Me grita aos ouvidos
compõe a cantiga
que me faz tua AMIGA...
E te deitas em meu colo
que eu toda me enrolo
em teus cabelos românticos

Me aponta teus ventos brabos
de um país roubado,
de tanto sangue derramado,
chamando um xaxado
pro gozo de amar
Que vou bebendo
com muita cadência
o fogo que expele do teu olhar
E nesse momento teus beijos ardentes
explodem contentes
queimando meus lábios,
meus tão fartos lábios
que te fazem delirar

Ah!... Me traz teus quenachos
Pra que eu te dê meus penachos
Assim... Vou-te levando aos Tabajaras

Lá, dormiremos ao som das araras
testemunhando o amor, a oiticica sagrada.
E ungiremos com óleo todas as nossas feridas

Então, tomaremos o mel da manhã
pra que todos os antepassados renasçam
E olharemos pro céu do amanhã
pra que nossos filhos se elevem
e beberemos a água do carimã
pra suportar a dor da Nação acabada

E os POTIGUARAS, comedores de camarão
que HOJE - carentes
nos recomendarão a Tupã.
E te darão o anel do guerreiro - parceiro
E a mim?
Me darão a honra do Nome
A ESPERANÇA - meu homem!
De uma pátria sem fim

agora, chamego!
me cheira,
me faz um churrasco,
me dá chimarrão,
uma saia de chita,
mais um chocalho bonito
pra Zamacueca dos Andes
pro Toré do Sertão

Reparte essa carne-de-sol,
esse baião temperado
que eu tô danada assim...
de amor por esse diabo.
Me dá açaí geladinho
uma rede quentinha
pra nos sonhar agarrados
nas libertas Ilhas Galápagos

Mas Zanzo,
zonza,
ao som do zabumba
ao som das zampoñas,
sob o azul do Amazonas
Benzendo teu coração

Mas chora teu charango latino
tua lhama andina, pelos cantos da cidade,
pelas cidades sem flor
Chora meu ximango sofrido
Porque  estou triste aqui.

E juntos, num só instante,
depois de tanto amor incessante
perceberemos INQUIETOS aqui,
o JURUPARIPINDÁ
a separar a todos os loucos Amantes.





BRASIL
Que faço com a minha cara de índia?

E meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos?

Que faço com a minha cara de índia?

E meus espíritos
E minha força
E meu Tupã
E meus círculos?

Que faço com a minha cara de índia?

E meu Toré
E meu sagrado
E meus "cabôcos"
E minha Terra

Que faço com a minha cara de índia ?

E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?

Brasil, o que faço com a minha cara de índia?

Não sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro

Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só ...
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo



ORAÇÃO PELA LIBERTAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS
Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada
Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz.
Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha razão
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes
Espalhadas pela terra pra brotar.
Não se apaga dos avós - rica memória
Veia ancestral: rituais pra se lembrar
Não se aparam largas asas
Que o céu é liberdade
E a fé é encontrá-la.
Rogai por nós, meu pai-Xamã
Pra que o espírito ruim da mata
Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.
Rogai por nós - terra nossa mãe
Pra que essas roupas rotas
E esses homens maus
Se acabem ao toque dos maracás.
Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,
Ajudai a unidade entre as nações.
Alumiai homens, mulheres e crianças,
Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.
Dai-nos luz, fé, a vida nas pajelanças,
Evitai, Ó Tupã, a violência e a matança.
Num lugar sagrado junto ao igarapé.
Nas noites de lua cheia, ó MARÇAL, chamai
Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.
Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés
Uma resistência de vida
Após bebermos nossa chicha com fé.
Rogai por nós, ave-dos-céus
Pra que venham onças, caititus, siriemas e capivaras
Cingir rios Juruena, São Francisco ou Paraná.
Cingir até os mares do Atlântico
Porque pacíficos somos, no entanto.
Mostrai nosso caminho feito boto
Alumiai pro futuro nossa estrela.
Ajudai a tocar as flautas mágicas
Pra vos cantar uma cantiga de oferenda
Ou dançar num ritual Iamaká.
Rogai por nós, Ave-Xamã
No Nordeste, no Sul toda manhã.
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.
Rogai por nós, araras, pintados ou tatus,
Vinde em nosso encontro
Meu Deus, NHENDIRU !
Fazei feliz nossa mintã
Que de barrigas índias vão renascer.
Dai-nos cada dia de esperança
Porque só pedimos terra e paz
Pra nossas pobres - essa ricas crianças.

Nhendiru: Deus
Mintã: criança
Boto: mamífero marítimo que mostra o caminho



IDENTIDADE INDÍGENA.

Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!
Mas caio da vida e da morte
E range o armamento contra nós.
Mas enquanto eu tiver o coração acesso
Não morre a indígena em mim e
E nem tão pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em direção ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da família espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma, sem brilho, sem fama.
Mas não sou eu só
Não somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões unidos como cardume
E não precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas lágrimas
Por quem não nos tem respeito.
A migração nos bate à porta
As contradições nos envolvem
As carências nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consciência se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas não perdemos o amor
Porque temos o coração pulsando
Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabeça
Como quem procura a fonte da tua força
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que já passou
Mas que vamos recuperar.
E tomaremos de assalto moral
As casas, os templos, os palácios
E os transformaremos em aldeias do amor
Em olhares de ternura
Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade
E transformaremos os sexos indígenas
Em órgãos produtores de lindos bebês guerreiros do futuro
E não passaremos mais fome
Fome de alma, fome de terra, fome de mata
Fome de História
E não nos suicidaremos
A cada século, a cada era, a cada minuto
E nós, indígenas de todo o planeta
Só sentiremos a fome natural
E o sumo de nossa ancestralidade
Nos alimentará para sempre
E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses
Desnutrição
Que irão nos arrebatar
Porque seremos mais fortes que todas a células cancerígenas juntas
De toda a existência humana.
E os nossos corações?
Nós não precisaremos catá-los aos pedaços mais ao chão!
E pisaremos a cada cerimônia nossa
Mais firmes
E os nossos neurônios serão tão poderosos
Quanto nossas lendas indígenas
Que nunca mais tremeremos diante das armas
E das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”.
Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer
A sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e espiritual.

Nós somos o primeiro mundo!


Aí queremos viver pra lutar

E encontro força em ti, amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel...
E enquanto somos dóceis, meigos
Somos petulantes e prepotentes
Diante do poder mundial
Diante do aparato bélico
Diante das bombas nucleares

Nós, povos indígenas

Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.  





CRIADOR, A IDENTIDADE E O GUERREIRO
Escorria-me das veias doentes
Um sangue ainda quente
Como percorre as águas do Norte
Levando pra bem longe
As ervas daninhas

Onde estavas identidade adormecida ?
Sofrida nas noites ensangüentadas
Anestesiada ou morta
Ou apenas me contemplando
Ao pé da porta?

Mirava-me calada, identidade amiga
Mas vieste a mim, pelas mãos do Criador
Fruto das atenções da luta
De suas mãos solares
De olhares ternos e carinhos puros

Quem tu és identidade?
Que secretos poderes tens,
Que me matas ou me revives
Que me faz sofrer ou me faz calar
Quão mistérios tu trazes na alma?

E quem é você  doce guerreiro salvador das vidas?
Por quantos sangues lutou para estancar
Quantos curumins fez brotar
Doce amante de mil formas a me encantar

Vamo-nos embora - nós três - agora
Tu, eu e a identidade caminhante
Só que cada um pro seu lado
Porque minha identidade pra renascer
A qualquer instante
Basta um fio de luz
Uma gota mínima de tolerância
Ou uma esperança em seu semblante.
Porque só um fogo eterno
O útero de meus avós
Pra tornar minha cidadania decente.



FANTASIAS DESERTAS
Não tenhas medo, IANUÍ
Que não vou-te enfeitiçar
O nada, eu quero de ti
Pro nada talvez vou partir.
Poema de Amor ?
Sei lá... se poema de amor !...
Só sei que me passa essa chama
E que me queima a alma errante.
Horas, mas dias, mil noites
Relembro teu corpo parado
Feito máscara imóvel ao vento
Doido a flutuar nos mares quentes.
Pássaro louco bicando os peixes
Engorda teu peito aberto
Inflama teu coração militante
É tua, essa paixão dos séculos
Mas te guardas feito tatu
Que não é chegada a hora
Enfia teus dedos na terra
Desafoga as dores nela!
Mira pros céus navegantes
De teu barco em flor e vela
E rouba todas as forças solares
E renasce Boto, amante, mais belo.
Engorda teu peito aberto
Aquece o coração nu noutras eras
Alimenta tuas veias em asas
Nas fantasias desertas
Corre pelos cajueiros  e  arrozais
Que te trago essa cana caiana
E outras limas pra melar nossas bocas
E relaxar no calor das manhãs

Eu não te quero mais puro
Entrega-te que te vejo criança
Amor pronto a explodir
Fogo eterno, quem sabe?...
Ou vou partir, antes mesmo de vir
Num calor aberto semente...
Numa ilusão e sonho somente...
Nessa estrada longa, errante

Sendo meu caminho tão farto
Sendo teu peito tão forte




CÂNTICO DA DISTÂNCIA
O que quero dizer são loucuras assim...
São delírios da noite, pesadelos sem fim
São absurdos desejos e embebedando a solidão
Pois  perdi o caminho e sofri o amanhã.
Agora o que faço: só penso intranqüila
A tua figura diante de mim
Parado no vento, feito imagem de santo
Que nem posso tocar...
Que nem posso falar...
Porque és feito pras deusas,
Completamente impossível
Impossível de olhar...
Impossível de amar...
E as minhas mão trêmulas e tímidas
Procuram as tuas
E estás tão distante no tempo, no espaço
Que faço loucuras e grito e procuro.

Mas paro!


E quero apagar da minha memória

Tua imagem de homem
Cantando a história
Porque és forte, por ser macho guerreiro
Valente lanceiro
Gritando a vitória.
E só porque existes
Nem pedes licença
E me invades a mente.

O que quero dizer são loucuras enfim...

Loucuras escondidas, sentidas, doídas
Tanta loucura que não quero mais pensar em ti.
Lá vão dias roendo comigo
Tua imagem de amigo
Lavando a memória e não te querendo
Mas me invades a alma
Meus olhos, as noites, meus cantos
Enfim, os sonhos
E tua imagem guerreira de cara fechada
Fechada pro mundo
Se abre pra mim...
E em cada sorriso eu sofro de novo
Com medo da vida, sufoco o meu pranto.
E vivo essa roda enjoada, perdida
Cantando os minutos, procurando a razão
E as horas se passam
E o tempo não passa
E só passa por mim
Um errante grisalha que ri a zombar sem fim.

E te imagino nos rios, nas matas contentes

Que são teus amigos constantes.
Fiéis, e  a eles teus segredos confessas
E apenas no olhar são teus confidentes.

Amaste minha flor aberta semente

Ferida de luta inda menina pra amar
E acendeu a paixão escondida
Brilhante pra vida
Sedente a chamar-te

São tudo loucuras enfim...

Por isso vou-me entregando à saudade, à ausência
À impaciência da ilusão.
E vou escrevendo e contando
Pro cais desse tempo, ainda criança
O tempo que jamais terei
Porque não brinco com a esperança
E vou vivendo a realidade
Do passado e do presente
Enquanto teu corpo ausente
Chama pelo futuro verdade !
Clama por uma vida crescente 



HOMEM 
Homem que nesta fortaleza mágica
És capaz de transformar
Tua dor e tua coragem sólidas
Os vícios e os princípios másculos
Em carinhos e créditos
Mas amantes com fé?

Homem, que me dizes - Hoje - Mulher!

És capaz de te despir
Deste sórdido destino
Deste código maldito
Que te faz muito sofrer
E que a história impõe te dar?

Homem, que me fazes, porém, sorrir...
És capaz de te impor
Diante da crueldade maior
Do egoísmo secular
Do poder e do julgar
E defender tua mulher?

Homem que me fazes, então, chorar
É possível despertar
Tão virgens teus fortes peitos
Rir de teus velhos conceitos
E ver o fêmeo em ti brotar
Acreditando em quem te quer?

Homem que não me permites errar!
És capaz de perdoar
Sem cobrar mil sacrifícios
Me ceder bens ou benefícios
E lá na frente me tomar?

Então, homem!
Contigo e por ti quero criar
E nas matas fecundar.
Produzir nas fábricas
Produzir nos campos
Produzir no lar...

Trabalhar com as mãos
Batalhar com as mentes
Numa célula crente.
É aí que eu te quero gente
E aí, eu te quero amante...

Portanto, homem
Eu te quero forte
Mas também te quero fraco...
Eu te quero rindo
Mas te quero chorando...
Eu te vejo indo
Mas te quero chegando...
Suponho-te potente
Porém também és impotente
Parece-me prepotente
Mas muito esforça-te humilde...
Eu te quero homem
Eu te quero humano
Eu te amo hoje
Eu te amo sempre
Eu te quero herói
Porém te vejo homem
Homem até errante
Mas da verdade urgente

Homem !
Concebeu a mim, não de uma costela
Mas de uma estrela, que trabalhava bela:
Mãe, fêmea, amante sécula
Mas com seus direitos de mulher.




NESTA NOITE SOMOS TODOS IGUAIS
Bom-dia sol! Nesta noite eu renasci.
Vi brilhar a luz em mim
Num carapinã que aos meus ouvidos
Zumbia o futuro de um colibri.

Canto teu primeiro beijo

Nas asas de uma imensa arara
Preparo o sagrado beijú
Pra te fazer delirar num calor primeiro

Pouco a pouco essa coisa louca

Vai-me tomando feito Anhangá
És tu que me cheira
Que me morde
Que me beija
Que me penetra até sangrar

Corre-me nas veias quentes

O delírio que me rouba a paz
Agonizo-me inteira!
Enrijeço-me solteira!
É tua boca que me suga a fonte sagaz...

Aqui sob o troco amazônico

Grita forte - LIBERTO - atônico
O velho ancestral
Um bruxo das matas
Dos rios
Dos lagos.
Me traz uma cana caiana
E me diz que é pra quem ama

Me entrega um atobá
E diz que um homem honesto
De olhos claros - GUERREIRO
Repousa enfeitiçado
Porque nele começa o primeiro reinado

Ao  bruxo, lhe disse o rei astuto
Acordando dos sonos matinais:
Que nas asas do Pitiguary
Viajaria no âmago das matas árduas
E traria - rápido - o bálsamo da HISTÓRIA
E traria - ríspido - a verdade nos matagais.
O rei - o meu rei amante - ainda sussurrando
Levantou áspero e sumiu pelos ventos
Nunca mais se bateu olhos nele, no entanto...
Mas ele deixou marcado nas pedras errantes
Um princípio de vida pros ilustres e banais:
“Nesta noite somos todos iguais”.






 Textos de Eliane Potiguara 

“La tinta y la palabra de la tradicción oral a la escrita en lengua indígena y en las adaptadas”

Ponência de Eliane Potiguara

Povos indígenas sempre estiveram à margem dos padrões culturais brasileiros, pela intolerância e discriminação social e racial da cultura dominante que obviamente estabelece as regras da informação e comunicação.

Num passado próximo, quando Povos Indígenas do Pará se levantaram contra a hidrelétrica de Kararaô ou quando no presente, líderes promovem, mesmo de forma precária, informações em rádios, vídeos, TVs Comunitárias, contrapondo às aldeias globais ou ainda quando criam cartilhas de alfabetização na língua materna, ou quando criam sites para promover a cura de doenças ou comerciar a venda do Guaraná, por exemplo, o fazem numa tentativa de sair da invisibilidade cultural, objetivando a tonificação daquele povo ou cultura, e no objetivo de expressar-se, seja na luta pelos direitos humanos ou trazer à luz do conhecimento oficial, científico, acadêmico e religioso a sua contribuição na história, enfim o seu conhecimento tradicional, na realidade sua propriedade intelectual. Isso precisa ser respeitado e ampliado!

Quando as parteiras indígenas bloqueiam os programas  governamentais de esterilização de mulheres, quando os pajés e curandeiros se reúnem nas montanhas, ou quando líderes interceptam estradas na defesa de suas terras, o fazem para defenderem suas tradições e meio-ambiente respectivamente. Isso é voz!...

Quando indígenas criam grupos de dança, grupos de teatro, coral infantil, promovem imprensa escrita na Internet, promovem a literatura indígena, o fazem no objetivo pleno de difundir informações e comunicações que não conseguem, devido à desvalorização dessa cultura milenar, que por questões históricas, éticas, precisa finalmente ser reconhecida e respeitada na prática e porque não também, ser atendida por uma política compensatória, através de ações afirmativas, implantadas nas políticas públicas.

 Todas essas variantes fazem parte da cultura indígena e estão interligadas numa única cosmologia: o território ancestral, o espaço ético, mítico, místico, mágico e sagrado da ancestralidade fortalecidos pelos anciãos e anciãs e perpetuados pelos jovens, através da educação informal e natural, reforçados pela educação formal, daí a importância também da criação de uma Universidade Indígena, para atender a uma educação diferenciada. Essa visão indígena é uma grande contribuição de vida para a sociedade brasileira que precisa ser estimulada para um respeito à diversidade cultural, onde a cultura indígena seja também um expoente.

A sociedade de informação e comunicação é um segmento altamente importante para a difusão da cultura indígena.No entanto, sabemos que as tecnologias avançadas não fazem parte da tradicionalidade indígena.

Mas, vejamos esse exemplo: A International Indian Treaty Council, Conselho Internacional de Tratados Indígenas, há mais de 30 anos atrás foi uma das primeiras organizações indígenas dos Estados Unidos a conseguir abrir um espaço político na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, que lutou para constituir a Declaração Universal dos Direitos Indígenas, culminando num Fórum  Permanente dentro da Onu. Atrás dela vieram centenas de organizações indígenas, inclusive brasileiras. O Conselho de Tratados foi uma das primeiras a usar o mecanismo da Internet para fazer valer seus direitos. As publicações, as danças, as manifestações foram outras formas de difusão de informação na sociedade de informação que vem garantindo o estabelecimento dos Tratados com o governo. The First Nations, do Canadá mudaram a Constituinte, obtendo apoio da sociedade difusão de sua cultura na mídia. Um grande projeto referente  a pesca foi apoiado pelo governo Canadense depois dessa parceria povos indígenas e sociedade de informação. Os Kunas do Panamá, através da expressão cultural divulgada na sociedade de informação, hoje possuiem suas comarcas definidas e sua arte literalmente nas ruas.

 Como vemos o respeito nasce quando a compreensão floresce. O lindíssimo artesanato em tecido, mesclado de infinitas cores denominado “Mola”, é uma marca nacional, é um design que imediatamente é identificado e respeitado pela sociedade e pelo mundo como uma arte indígena e por isso valorizada.

Assim devem ter esse tratamento às nossas ervas medicinais, nossa cerâmica marajoara  amazônica de origem indígena, nossos alimentos tradicionais, nosso guaraná, cupuaçu, nossos lugares sagrados, nossas terras, nossos cemitérios, nossas cantigas, histórias e lendas, nossas orações, nossos cânticos sagrados, nossa caça , nossa pesca, nossa educação, saúde e agricultura. Enfim, uma infinidade de elementos, podem ser difundidos na sociedade de informação, fortalecidos pelas Redes de Comunicação Indígena, pelas rádios comunitárias, pela internet através dos sites, pelos canais de televisão, e mesmo pelas Conferências ou seminários indígenas, olho a olho ou virtuais, mas não mais precários como vimos fazendo, mas de uma forma tecnológica, científica, educativa e sistemática, apoiada pelo GOVERNO, através de políticas públicas discutidas nas bases indígenas. O que queremos como desenvolvimento?

É um desafio para povos indígenas brasileiros a sua inserção na sociedade de informação, devido a fragilidade sobre os seus direitos intelectuais, a sua propriedade intelectual? Sim! Mas é um desafio que deve ser ultrapassado através da conscientização, da capacitação, da formação técnica, da criação de bancos de dados indígenas para garantir todo acervo histórico, garantindo suas patentes. A cultura tradicional sofre evoluções com o modernismo e tecnologias. Essas tecnologias devem ser usadas como ferramentas para a defesa dos direitos indígenas. Desenvolvimento para povos indígenas deve ser um processo que coaduna cultura tradicional e novas tecnologias e novas esperanças e isso os Kuna do Panamá o fazem com a maior categoria: unir a tradição indígena aos novos conceitos de tecnologia e sua sociedade de informação, sem perder sua cosmovisão. Por isso, eles são os precursores da imprensa e literatura indígenas, assim como a maioria dos povos indígenas do México também o são. Povos indígenas devem se espelhar neste modelos de desafio e desenvolvimento e novas tecnologias que não destruam a biodiversidade e territorialidade indígenas.

A Comissão de  Educação, Cultura e Desportos pode dar um grande passo político e histórico, reconhecendo, apoiando e investindo na inserção dos povos indígenas na sociedade de informação e comunicação através de Programas criados e geridos pelos próprios povos indígenas. Hoje temos no Brasil várias edições do Jogos indígenas que refletem pura cultura oral, visual, escrita como exemplo de dignidade!

As veias abertas que jorram o sangue de nossos ancestrais sacrificados, as barrigas das mães fecundas, entristecidas pela opressão, os cânticos mais transcendentais apagados pela imposição cultural, todos esses segmentos mágicos, mas reais, serão substituídos por crianças, jovens, organizações capacitados para o futuro, a partir de sua inclusão na sociedade de informação e comunicação, ERRADICANDO paulatinamente os contrastes da sociedade e ERRADICANDO a discriminação social e racial aos povos indígenas.

Avanços na luta do movimento indígena brasileiro têm se dado de forma concreta. Apesar de algumas dificuldades, e apesar de alguns pontos isolados como falta de apoio das políticas públicas ainda, a Educação Indígena _ hoje_ no Brasil já é uma realidade. É uma Educação diferenciada, onde a cosmologia indígena está ali inserida no seu sentido mais amplo. Dentro deste aspecto, há de se situar a Literatura Indígena como um instrumento de conscientização, força e libertação.

Essa Literatura deve ser incentivada através da Educação Indígena, no dia a dia das escolas, para que os próprios indígenas sejam realmente os interlocutores de suas culturas, tradições e visões de vida. No entanto, outro aspecto de fundamental importância há de se considerar. É a tradicionalidade do discurso oral pelos componentes mais idosos, idosas e pajés da comunidade que não pode, de forma alguma, ser ignorado. Na realidade, esse discurso é a base sólida, é a conceituação, são os princípios primordiais étnicos que fundamentam essa tradição e que fundamentarão a escrita, a partir de valores lingüísticos próprios de cada povo indígena.

Diante do mundo moderno e de alguns aspectos maléficos da neocolonização e globalização, se reforça que é necessário o registro escrito, realizado pelos próprios indígenas como uma medida de precaução e cuidado para que o “contar” e historiografia indígenas, não caiam no domínio público, ou que terceiros ou instituições sejam beneficiados nos aspectos financeiro, histórico e moral pelos direitos autorais.

Povos indígenas do mundo inteiro lutam, através dos fóruns nacionais e internacionais pela conservação da cosmologia, contra predadores naturais ou impostos, no caso de filosofias burguesas, religiosas, filosofias de cunho “pátreo-pseudo-moral”, filosofias coloniais ou imperialistas. O empobrecimento social das etnias também é um fator que causa a perda dos valores culturais, espirituais, éticos. Ali as mulheres, as crianças e os velhos e as velhas acabam sendo muito mais sobrecarregados pelo peso da discriminação social e racial, como é o caso da situação de fome e suicídio no Mato-Grosso do Sul/Brasil. O empobrecimento e a destruição das terras indígenas também são fatores de alto risco. Centenas de exemplos se têm dessa situação.

A literatura indígena cumpre o papel de resgate, preservação cultural, fortalecimento das cosmovisões étnicas. O futuro escritor indígena deve ser já incentivado, na aprendizagem da Educação bilíngüe e Educação em geral, desde pequeno. O escritor indígena é o futuro antropólogo, aquele que vê, enxerga e registra. Povos indígenas devem caminhar com seus próprios pés.

 Núcleos de pensadores e escritores devem ser também incentivados e capacitados dentro das Organizações indígenas, assim como muitas vezes, falou-se em discutir a questão de gênero, de raça e etnia nas Assembléias. Os problemas identificados devem ser imediatamente direcionados para estudos objetivando estratégias, mecanismos que busquem a solução das dificuldades, dos conflitos e das diferenças.

Quando a rosa desabrocha, as abelhas vêm espontaneamente sugar-lhe o mel. Deixemos que a rosa de nosso coração, de nossa alma e caráter desabroche completamente na sociedade brasileira, a partir de um testemunho de nossa capacidade, auto-gestão, diálogo e ética, para que essa sociedade desconstrua, rapidamente, o discurso e prática atuais que causam a exclusão de povos indígenas. Os resultados e o respeito aparecerão.

Pensadores e escritores indígenas: Contem e criem então!
Texto de Eliane Potiguara (subsídio para escolas e técnicos)



Literatura Indígena, um boto em botão!

A literatura dos excluídos ainda é uma pele de Boto que foi destruída ao longo dos séculos e que está esquecida e abandonada  no fundo dos rios a precisar renascer_ ardentemente_ com a força da alma da natureza e humana. Mas essa natureza está envolta nas amarras dos séculos de dor, do obscurantismo, dos grandes enigmas e contradições da própria existência, do divino e do amor. A literatura ainda é um segmento cultural e político que não consegue chegar à totalidade das camadas menos privilegiadas social e economicamente do Brasil e do mundo.

Esse Boto Literário em botão, na atualidade, precisa ser salpicado com as lágrimas emocionadas da Natureza, muitas desvairadas lágrimas. Aí sim, essas feridas do mundo­_ que as mulheres indígenas as eternizaram com seus beijos de cura, bálsamos históricos, histórias não contadas e adormecidas no fundo do rio ou dos oceanos, essas sim, _ serão eternamente curadas, assim como o Boto literário.

 A Natureza clama para ser ouvida; o Boto despelado precisa ser ouvido; o grande estrondo do encontro das águas claras e escuras amazônicas suplica secularmente um minuto de audição. Assim é a mente humana: Um mundo imaginário, místico e mítico deste ser que chamamos escritor, escritora, um ser humano diferenciado cujas emoções transcendem a realidade brutal da vida.

 Este Ser humano vestido também de Boto traz sua alma dilacerada, repleta de feridas e almeja a compaixão do próximo na reconstrução das identidades em busca do ser digno, onde os direitos humanos sejam todos repletos de festas, pétalas de rosas, aromas mais adocicados pela flor do amor e da Vitória-Régia: A cura! A epiderme precisa ser epiderme e não couraça, casco e carcaça.

A visibilidade da literatura indígena é como a vida de uma mulher que viveu mais de trinta anos de dedicação a seu amado, querendo ardentemente ter um filho e ele, finalmente, foi ter um filho com outra, negando-lhe não só a maternidade como o próprio amor e a companhia. O útero ressecado e a pele depauperada dessa mulher foram depositar-se no fundo dos rios e mares oceânicos e ora pacíficos. Ela precisa recuperar a pele de boto, de foca, de golfinho e respirar o ar da luminescência e caminhar com a mulher guerreira a sua frente, nas terras, nos mares, nos rios e nos lagos e transformar esses séculos perdidos em dias de vitória e luz. De lá de cima, de onde ela estiver ficará  provado no seu âmago que ela poderá observar, sorrateiramente, o mundo e rirá das tempestades: Ei-la nos marcos de novos ares!

A literatura a que me refiro é assim, vem fazendo a caminhada passo a passo com as expressões de artistas do passado e da contemporaneidade cantando e contando a cultura popular. São os escritos caboclos, indígenas, afrodescendendes, mestiços e todas as expressões que não tiveram VOZ.  E a literatura indígena, que do estágio oral saltita pelas letras escritas na estratégia da vivificação das histórias de vida dos ancestrais, clama por sobrevivência e justiça dos direitos autorais. O reconhecimento dos conhecimentos tradicionais, para que seja  perpetuado em saberes antigos de curas indígenas, como um patrimônio histórico e cultural, precisa flamejar  pelo território nacional a  desembocar na  mentes e corações dos escritores indígenas como as águas do Rio Amazonas, que flui mais belo: um reconhecimento conquistado! Assim será para os próximos tempos. A Mãe dos Deuses na defesa da floresta e do planeta, promovendo conhecimento e estimulando a leitura no Brasil e no mundo.

O autor e a autora indígenas _aqueles que andam com o guerreiro e a guerreira à sua frente_ acabam de florescer a cura desde a ancestralidade oral sedenta pela escrita e por isso ganha de presente parte dessa cura secular, da almejada, da sedenta visibilidade literária indígena, hoje uma conquista em realidade.

As mulheres guerreiras, as chamadas antigas Amazonas e as contemporâneas guerreiras mulheres de todo Brasil, com seu PODER DE MULHER PELA CRIAÇÃO, seja qualquer criação, podem presentear a todos os seus homens e amados um MUYRAKITÃ( um sapinho) como amuleto verde de proteção à vida eterna da alma humana, aquela que fez algo pelo bem caminhar da Humanidade no ato da CRIAÇÃO! Literatura indígena, um testemunho da Criação literária nas letras dos escritores  e escritoras indígenas.

Vamos aqui narrar uma pequena história para finalizar esta ponência e a Oração pela Libertação dos Povos Indígenas!



"CUNHATAÍ, A MENINA SAGRADA CONTRA O SUICÍDIO"!

Quando Cunhataí era criança, ouvia os espíritos da mata, ela via a mãe das águas. Os sonhos eram o seu direcionamento. Sua clarividência era ancestral. Cunhataí tinha o poder da cura. Onde colocava as mãos, o bem se fazia. Sua mãe, insatisfeita com as invasões dos estrangeiros, tomou erva má, para que a semente que ouvia o espírito da mata, morresse.  A erva fez muito mal à pequena Cunhataí; não a matou, tirou um pedaço dela... A mãe desesperançada com sua aldeia, não queria mais as coisas do espírito, negava a terra e a raiz. Ela queria o suicídio. Mas a avó da menina era mais guerreira. A mãe ficou cega e muda. Tempos depois a mãe renasceu da mudez e da cegueira por uma prova divina e se tornou pajé, sacerdotisa das águas. E a triste avó, cansada das dores, do peso do tempo e do sacrifício, morreu. Mas sua essência permaneceu. O homem branco, naquela época ria e incutia maus valores em alguns membros do povo... A semente ferida e mutilada nasceu triste e com uma estrela no olho direito. Era Cunhataí. Foi o lado direito que quase morreu. Só ficou roxo como uma marca, um sinal e... Sobreviveu para ouvir os espíritos, os antepassados e as velhas mulheres enrugadas pelos séculos. Sobreviveu para compreender o significado das três velhas, cujas seis mãos se transformam em cobras. O velho espírito disse a Cunhataí: Vai ave-menina e mulher! Cria asas e enxergue, um dia, quem sabe, seremos livres! Ela foi pra longe sofrer. Por isso quando ela retornou à sua aldeia de origem, o cacique, a pajé e os segmentos do povo a reconheceram, porque ela já era esperada por decisão dos ancestrais, há muitos séculos. O seu olho direito roxo_ o espiritual_ foi identificado pelos líderes conectados com a ancestralidade e pelo pitiguary, o pássaro que ANUNCIA. Os que não reconheceram estão muito além, mas muito além de qualquer tipo de compreensão do que seja essência, transcendência indígena. Estavam cegos, por isso traíam seus próprios conterrâneos e  incentivavam a discórdia, a inveja, a mentira, a intriga, a luta pelo poder e desconheciam o verdadeiro sentimento de paz, solidariedade, amor ao próximo, companheirismo e cooperação, por isso muitas meninas sofriam. Foram contaminados pelo poder dos neocolonizadores. Só vislumbravam o materialismo, por isso não podiam perceber os sinais dos deuses, dos ancestrais, do Grande Espírito_ a Poderosa Força Cósmica_ existente dentro de todas as boas almas. Mas Cunhataí, em toda a sua vida seguiu o boto dos rios, os espíritos,  e as ordenações de seus sagrados ancestrais. Muitas mulheres indígenas que ouviram a história de Cunhataí, desenvolveram um útero sadio, porque entendiam que a cosmovisão indígena estava sagradamente vinculada a Mãe-Terra. E começaram a trabalhar e a lutar para melhorar as condições de vida do povo. Ninguém mais se suicidou, porque o amor e o respeito prevaleciam nas famílias, entre o homem e a mulher. A palavra fome nunca mais se ouviu naquele povo, quando também os homens perceberam o mal que haviam adquirido.

Cunhataí deixou a mensagem para que todos os homens e todas mulheres prestassem bem a atenção nos seus sonhos e deles fizessem seus caminhos a partir do respeito pelos velhos e velhas e pelos ancestrais e pelas boas relações de igualdade e respeito entre homens e mulheres!

*Conto de ELIANE POTIGUARA do livro "METADE CARA, METADE MÁSCARA" Global Editora




" ORACIÓN POR LA LIBERTACIÓN DE LOS PUEBLOS INDÍGENAS " *
(A Marçal Tupã-Y , Cacique Nhandewa asesinado em 1983/Brasil)

Dejen de podar mis hojas y quitar mi pala
Basta de ahogar mis creencias y cortar mi raiz
Basta de matar mis cantos y callar mi voz
Basta de arrancar mis pulmones y sofocar mi razón
Non se seca la raiz de quien tiene semillas
Regadas en la tierra para brotar
Non se borra de los abuelos  _ la rica memória
 La sangre de nuestros ancestrales y ritos para acuerdar
Non se cortan las largas alas
Que el ciel es libertad
Y la fé se encontrará
Rogad por nosotros mi padre Xamã
Para que el espititu malo de las florestas
Non provoquen desanimo, miseria y muerte
Rogad por nosotros tierra madre
Para que esas rotas ropas
Y esos hombres malos
Se acaben al toque de las maracas
Apartádnos de la disgracia, de la bebida y da discordia
Ayuda a la unidad entre las naciones
Alumbrai a los hombres, mujeres y niños
Aparta de los hombres fuertes, la invídia y la ingratitud
Dadnos luz, fé y vida em nuestras pajelanças
Evita, ó Tupã, la violencia y la matanza.
En el lugar sagrado junto al igarapé
En las noches de luna  llena, ó Marçal, llama
Los espiritus de la mandioca y de los pajés
Una resistencia de vida
Despues de beber nuestra  chicha con fé
Rogad por nosotros, aves de los cielos
Para que viengan onzas, caititus, siriemas y capivaras
Ciñe los rios Juruena, San Francisco y Paraná
Ciñe hasta los mares del Atlântico
Aunque que pacífico somos, sin embargo
Muestranos el camiño echo el boto
Ilumina nel futuro nuetra estrella
Ayudanos a tocar las flautas mágicas
Pra entonar cantos de  ofrendas
O danzar el ritual Iemaká
Rogad por nosotros ave-Xamã
En el Nordeste y el Sur, toda mañana
En el Amazonas, en agreste y en el corazón de cunhã
Rogad por nosotros araras, pintados  o tatus
Veni a nuestro encuentro, ó Diós, Nhendiru!
Haced felices a nuestros mintãs
Que de barrigas índias van a nacer
Dadnos cada dia la esperanza
Porque solo pedimos tierra y paz
Para nuestros pobres- Estos ricos niños...
Eliane Potiguara
Todos os direitos autorais reservados a autora.

1 comentários:

Olhos de mel disse...

Querido amigo; estou passando uns tempos no interior e usando um modem, que é lento demais. Quase não tenho vindo a net.
Mas gostei muito da escritora! Andei lendo alguns de seus poemas e achei maravilhosos!
Beijos